No funeral

Morena
4 min readDec 9, 2021

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Era a vez de Elena discursar. A recente morte de seu marido, Miguel, ainda não havia sido completamente processada, legal ou emocionalmente. Encarregada agora de seus filhos de coração e da administração do negócio da família, só conseguia se lembrar dos conselhos de sua mãe. E pensando neles, caminhou até o púlpito da igreja.

— Oi, pessoal. Obrigada por virem. Espero que todos estejam péssimos, assim como eu estou, por perder o Miguel nesse acidente.

Ela abriu um sorriso pela metade, compartilhado por todos na cerimonia. Respirou fundo e continuou.

— Nunca pensei nas coisas da vida como justas ou não. Afinal, tudo pode acontecer com qualquer um. Ou mais ou menos. Minha mãe, que está aqui me apoiando mais uma vez — direcionou o olhar para ela — obrigada mãe, me deu um conselho importante. Na verdade dois.

Elena subiu as mãos, mais ou menos na altura no microfone apoiado naquele simples palanque de madeira para simular as aspas.

— Nunca se envolva com caras que já têm filhos e nunca se case.

Todos riram, especialmente Enzo e Clara, nos início de seus 10 e 15 anos.

— Pois é, claramente deu certo. Sempre os achei meio absurdos. Mas hoje eles fazem completo sentido, são de fato bons conselhos. Quando comecei a namorar o Miguel, há 7 anos atrás, tínhamos muita dificuldade em agendar encontros sem atrapalhar o cronograma com as crianças. Convencer a mãe do Enzo que ela podia confiar em mim, meu Deus do céu, achei que seria impossível. E quando eles vieram morar com a gente, então. As primeiras semanas não se encontrava o sofá embaixo das tralhas nem a pia embaixo da louça. — dessa vez até ela deu risada, nostálgica.

— Mesmo durante todo esse tempo, nenhum desses conselhos parecia ser apropriado. Só hoje, ao olhar pro rosto dos filhos que ele escolheu dividir comigo, para essas crianças fantásticas que me aceitaram em suas vidas, eu entendi minha mãe. Nunca vou olhar para os nossos filhos sem sentir o Miguel aqui. Não haverá como me sentir mãe sem ser grata pelo pai que ele foi para nossas crianças. Enzo, Clara, ainda que vocês não tivessem os olhos e sorriso, a covinha e os jeitos de falar, vocês têm o mesmo bom coração do seu pai. O mesmo bom humor. A mesma inteligência de quem sabe não saber tudo e se diverte com aprender tudo que puder. Mesmo que vocês não fossem do mesmo sangue que ele, sempre seriam, assim como vão ser, a maior prova do amor que ele era capaz de entregar. E nos dias em que eu falhar em entregar esse amor, eu peço que me perdoem. Prometo que eu vou tentar ser tão boa pra vocês quanto ele foi. E quando sentirem saudades, nós vamos lembrar ele sempre estará presente através do amor que nos deu.

Elena sentiu as lágrimas invadirem seus olhos. Virou-se de costas para que as crianças não a vissem desabar. Fechou-os e esperou em silencio até que a intensidade abaixasse. Seus filhos a olharam com o coração divido entre o amor por quem se foi e o amor por quem está. Levantaram de mãos dadas, foram até aquela mãe de escolha e a abraçaram. Sentaram-se juntos no chão, protegidos naquele abraço. Enquanto os convidados se comoviam com a cena, Elena pegou o microfone e se sentou na ponta daquele pequeno palco com as crianças. Respirou fundo algumas vezes, deu mais um abraço nos filhos que também eram seus e disse:

— O outro bom conselho da minha mãe era: não se case. Esse eu realmente achei que fosse seguir. Fora o tempo de enrolação, foram dois anos de namoro e dois vivendo juntos antes do pedido de casamento. E hoje vejo casamento é mesmo horrível. Dividimos todos dias desde então. Todas as memórias e melhores histórias. Todas as dívidas e estresses. Compartilhamos nossa comida, nossa casa, muitos banhos e várias discussões. Hoje, nenhum de vocês será capaz de olhar para mim sem lembrar dele. Nem eu mesma serei. Para mim, será impossível tirar o espaço que ele ganhou aqui.

Elena colocou a mão sobre o próprio peito, disfarçando muito mal a vontade de arrancar algo de lá. Continuou ainda a pressão sobre si mesma.

— Ele me deixou o espelho. Pois é, foi a única coisa que eu pedi. Mas claro não pedi agora. Pedi no nosso segundo ano dividindo apartamento. Eu lembro que já planejávamos passar a vida juntos. E ele levantou o assunto de o que faríamos quando um dos dois morresse. Eu me recusei a pensar naquilo de pronto. Ele começou, com aquele espírito encorajador que sempre teve, dizendo que ia querer herança. Ele confiava tanto no meu sucesso que tinha certeza de que eu compraria a mansão dos nossos sonhos. Eu ri muito naquela conversa. E quando chegou minha vez, respondi que queria o espelho. Porque sempre que eu me olhasse, me visse, depois de tê-lo amado tanto, sempre veria a imagem dele com a minha. Nem sei se lado a lado. Acho que sobrepostas mesmo. Porque o espaço que ele tem em mim jamais será apagado.

— Eu me perguntei no hospital se teria feito uma escolha diferente caso soubesse que o perderia em tão pouco tempo. Se teria seguido os bons conselhos que me evitariam altos e baixos intensos e memórias tão fortes. E toda essa reflexão durou aproximadamente dois segundos. Terminou quando o médico chegou e me disse que podia ver o Miguel, que estava consciente no quarto. Ele passou 10 minutos acordado entre o coma e… Ele não conseguia falar. Mas eu agradeço a cada segundo por ele ter se esforçado para acordar na nossa despedida.

— Nunca teria seguido aqueles conselhos porque conheci o Miguel. E em qualquer lugar ou tempo em que eu o encontrasse, amá-lo e aceitar todo amor que estar com ele me traria seria, assim como é hoje, a melhor decisão que eu já tomei. Espero que cada um aqui saiba da sorte que teve em cruzar com um homem tão especial. E que o amor que ele deixou para nós nos torne melhores também.

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Written by Morena

Eterna aprendiz na escrita e na vida adulta. Falo principalmente de (e com) amor, próprio e pelo outro.

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